quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Era uma vez um monstro


Era uma vez um monstro. Um terrível monstro sem cara definida e hora para surgir.
Ele consegue me fazer sentir tudo e nada no mesmo dia. Basta ele aparecer que até mesmo o mais brilhante dos sorrisos me escapa do rosto. Ele me faz sentir fraca, um lixo, o ser mais insignificante da face da terra. Ele me faz revirar na cama, me traz cicatrizes por dentro e por fora, me faz voltar no passado e sentir medo do futuro. Esse monstro é sorrateiro, e são poucos os que já me viram ao lado dele. Ele tem dessas coisas, aparecer quando estou completamente sozinha, pra me mostrar através da escuridão do meu quarto todos os vazios da minha vida. Ele consegue ser bem cruel quando quer, e vive me dizendo que eu não tenho mais o que fazer por aqui. Esse monstro sabe apontar friamente para cada dor minha. 
As pessoas que perdi pelo caminho juntam-se a ele para me fazer duvidar das que ainda permanecem do meu lado. E nisso, ele revira minha mente, me faz acreditar que enlouqueci, me faz dizer coisas da qual tenho certeza que irei me arrepender depois, e me tira todo o controle do meu próprio corpo. Esse monstro as vezes some, e quando penso que estou livre, eis que ele ressurge ainda maior. Um dia ainda irei me cansar de toda essa batalha, ou apenas não suportar mais. Um dia ele será maior que eu e me consumirá por inteira. Mas ele não gosta disso. Tortura é a sua especialidade. Por que dar o seu pior de uma só vez quando pode ir fazendo alguém surtar aos poucos? E nisso ele é muito bom, preciso confessar.
Querido monstro, eu me rendo. E eis que essa folha de papel é minha bandeira branca.


quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Apenas um jogo


É apenas um jogo, você não vê? Te conheço, sei que você é inocente até onde quer, e que não é vingativa até onde te agrada. Mas ele também sabe manipular, e sem perceber, você entrou no jogo dele. Era isso que ele queria desde o começo. Você pensou mesmo que estava por cima? Realmente acreditou que tinha ele em suas mãos? Pensei que você só se fazia de idiota até onde te convinha. Vai continuar mesmo nessa? Você merece tão mais.
Precisarei te sacudir até você enxergar o tamanho do papel de trouxa que você está assinando? Vamos combinar, você é bem mais que isso.
Não vale a pena se sujar tanto por um joguinho tão momentâneo. Ou você acredita mesmo que isso vai durar? Te contar uma coisa: máscaras caem vezes ou outras. E você está colocando tudo a perder por um relance que logo passará. Não troque o certo pelo duvidoso. Abre esses olhos garota, você é muito mais do que qualquer homem pode ver. E eu te vejo por trás de toda essa dúvida, toda essa confusão. Tudo está parecendo embaçado agora, mas basta você se afastar que enxergará o óbvio: você está sendo uma garotinha iludida por um estranho que te promete doces. Abra esses olhos. Fuja enquanto é tempo.



quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Eu, paradoxo


Perdida dentro e fora de mim. Andando em círculos para lugar algum. Correndo para não chegar ao final. Perdendo-me para encontrar. Bebendo solidão para sentir sede de saudade. Entornando até a última gota de passado para, em uma tentativa inútil, clarear o agora. Nada. Escuridão que dói, silêncio que fere. Após um bom tempo, percebi que meu lugar é em lugar nenhum. Não pertenço a nada, não me encaixo entre peça alguma. Estaria eu no quebra-cabeça errado?


domingo, 22 de novembro de 2015

Enlouquecendo

Nunca estive tão perto da loucura. Os nós na garganta arrebentam enquanto rasgo meu peito na esperança de conseguir reviver meu coração. Sentada no chão do banheiro enquanto a água escorre, pessoas me rodeiam. Pessoas que nunca vi na vida. Observam-me enquanto apontam seus finos dedos. “Vejam só, outra perdida no mundo”. De relance, me vejo na sacada de um prédio. Me embebedando e me perdendo na fumaça enquanto o mar cinza e os prédios sem cor tentam me dizer algo que não consigo compreender. Estou sozinha, completamente sozinha. No meu peito, um enorme buraco. Vivo em uma eterna busca por pessoas que o preencham, mas nada se encaixa. A noite acaba. Fecho os olhos e me imagino caindo, sentindo em segundos o que deveria ter sentido durante toda a minha vida: me sentir completa. O baque ao chegar no chão me acorda. Uma taça de vinho despenca do 12º andar. Apenas mais um surto. Virou rotina. Com o tempo aprendi que preciso ouvir meus fantasmas de tempos em tempos, eles só querem um pouco de atenção. Além de dar uma bronca nessa garota do espelho, claro. 
A caixinha de lembranças do armário nunca me soou tão distante. Enormes muralhas me separam de tudo aquilo, e por mais que eu grite ou tente quebra-la, ela permanece intacta. Não me lembro de quando ou como, mas sei que fui eu mesma que a construí. Acho que tinha a ver com um tal de “seguir em frente”. Mas sem querer, acabei construindo uma outra muralha na minha frente, por mera proteção de um imprevisível monstro chamado futuro. Acabou que a minha maior esperança tornou-se o meu maior medo. “Nada vai dar certo. Cresça garota, você não tem mais cinco anos para acreditar em castelos e princesas. A vida sempre foi e sempre será essa coisa sem sentido algum que consumirá cada centímetro de você enquanto ainda puder ficar de pé. E quando cair? A vida só vai te dizer o quanto você foi fraca nesse jogo” – Uma voz sussurra no meu ouvido. A minha voz. Não sei o que deu errado no caminho, mas bem, agora estou presa. Preso no meio de tudo isso, junto com meus fantasmas e quaisquer outros sentimentos que materializei por mera companhia. A água do banheiro continua escorrendo pelo ralo, mas permaneço imóvel. Não consigo me levantar, não consigo abrir os olhos, não consigo pensar em nada que envolva os próximos segundos que antecedem a tudo isso. Minha ampulheta encontra-se cada dia mais perto do último grão.

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Labirinto

Entrei nesse labirinto faz tempo. Engraçado que antes era apenas uma estrada qualquer, eu não encontrava a saída, mas afinal, para que encontrar uma saída se é uma estrada que obviamente está me levando para algum lugar? Nunca me dei conta de todas as voltas que dei sem sair do lugar. Até que um dia eu acordei. Olhei ao redor e percebi que era a milésima primeira vez que passava por aquela esquina. De repente tudo ficou tão claro, e ao mesmo tempo tão confuso em minha cabeça.  “Ai meu Deus, estive em um labirinto todo esse tempo!”.
Pior que uma pessoa perdida, apenas aquela que não sabe que está perdida. É a pior espécie de confusão. Um dia sua vida está ok, e na outra “bam”, tudo muda de lugar. Você é a culpada da mudança, no entanto você não tinha escolha. Saber da existência do labirinto tira a opção de seguir em frente, já que você chega a conclusão de que essa opção nunca existiu. Voltar atrás? Seria continuar andando em círculos. E vamos confessar que já estava ficando meio tonta depois de tantas voltas.
A saída está logo ali, eu posso sentir. Mas a questão é: eu realmente quero sair desse labirinto? Ou adoro a sua incerteza e esperança de encontrar algo a cada esquina que viro?  No fundo eu gosto de ficar aqui. E mais no fundo ainda, acredito que aqui é o meu lugar. Mas isso não posso confessar nem para os meus mais ocultos sentimentos.

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Incessante vazio


No reflexo dos meus olhos vejo uma estranha. Não faço ideia de quem sou, o que quero ou quem. Fecho os olhos e vejo um vazio tão profundo que me afoguei no nada. É assustador.
Não quero nenhuma pessoa por perto, inclusive eu. Tentei conversar comigo mesma e desisti. Sou tão confusa que passo longe de me entender. 
Quando minha mãe me dizia que eu não deveria conversar com estranhos, eu estava no meio? O vazio ultrapassou as barreiras do meu corpo e invadiu minha vida por completo. Só queria que isso acabasse. Queria fechar os olhos e enxergar algo além do eterno branco que me persegue. 
Tentei chorar e não saiu uma lágrima sequer. A angústia me consumiu,juntamente com a culpa por ser eu. Meu coração dispara em câmera lenta. Tornei-me pedra. Meu coração congelou. Minha alma me abandonou. Minha razão fugiu. Só restou-me a dor. A dor de não sentir um pingo de felicidade percorrendo minhas artérias. 
Meu vocabulário esgotou-se junto com a minha sanidade. Sou peixe querendo se afogar. Trem fora do trilho. Borboleta que não sabe voar.
Pobre borboleta, presa em seu casulo. O casulo que ela mesma construiu. Escutando o mundo acontecendo lá fora sem conseguir sair dali,muito menos ver algo além da escuridão que a envolve. Ouvi dizer que ela tem medo do escuro. Suas inúteis asas morrerão sem terem sentido. 
Minha cabeça doí, meu corpo estremece. Desmorono como minha vida. Prédios sem base desabam e castelos de areia sempre são levados pela água. Não dá pra lutar com a gravidade da vida, não há conserto para o que foi feito para cair. Não passo de tijolo sob tijolo. Nada que sustente. Um sopro e já era, não restará pedra sob pedra.

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Caso perdido

Apenas mais um caso perdido? Sim, posso até ser. Sou apenas mais uma perdida nesse mundo mesmo. Caso irreparável, daqueles sem solução. E sabe qual é a melhor parte de “ser perdida”? Essa é a minha chance de aproveitar cada estrada que surgir na minha frente. Não me importa o destino final, quero apenas curtir o caminho.
Ando vivendo um pouco de tudo, fazendo coisas que sempre sonhei e outras que nunca me imaginei fazendo. Coisas que amo e coisas que odeio. Me descobrindo pouco a pouco, e não me arrependo nem um pouco.
É garoto,eu realmente não tenho solução. Mas quem disse que quero uma? Qualquer dia me encontro por aí. Por enquanto ainda estou procurando, e ouvi dizer que a melhor parte é justamente a procura, pois é quando nos abrimos para as oportunidades da vida, sem receios e preocupações.
Sempre fui apontada como a errada, a problemática, a louca... Com o tempo fui acreditando. E assim aprendi a me julgar mais que qualquer outra pessoa. Virei especialista nisso, tenho que admitir. Me amar? Nossa, que absurdo! Logo eu, essa garota tão confusa e sem sentido. A estranha que não se encaixa em lugar nenhum.
Passei uma vida inteira escutando que eu não cabia em nenhum quebra cabeça, e só hoje me perguntei se eu realmente quero caber.  Pela primeira vez eu me vi além de todos os defeitos que coloquei na minha frente. E foi aí que me vi de verdade. A garota que ainda não faz a menor ideia de quem é, mas que se orgulha de cada passo que já deu, de cada besteira que já vez, e de cada partezinha de si.
Quer saber de uma coisa? Não tenho conserto mesmo... Ainda bem!


quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Uma madrugada qualquer


Toda madrugada é a mesma coisa. A saudade aperta. A vontade de falar o que não devo vem à tona. O peito pesa. Os olhos inundam.
A loucura esmurra minha porta, finjo que não estou. Trinta anos nas costas e tudo ainda continua a mesma coisa. Eu realmente acreditava que tudo iria melhorar. 
Entrei nessa corrida guiada pela esperança, e ainda estou aguardando o prêmio final. Isso poderia ter acabado anos atrás, em outra madrugada qualquer, no entanto eu insisti. Por medo. Por esperança. Por covardia.
No parapeito da janela, tudo é tão mais lindo. Ver que o mundo gira sem você, que as pessoas continuam passando desesperadas de um lado para o outro, para fazer suas coisas que pedem pressa. E ninguém olha para cima. Ninguém lê meu pedido de socorro.
Quinze anos se passam e a mesma cena se repete. No entanto agora já cheguei ao fim desse livro, e descobri que a mocinha morre no final. Bem clichê.

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Últimas palavras


Decisiva, fatal, imutável, definitiva. A pior última vez sem dúvidas é aquela que vem sem aviso prévio. Nada de preparações, despedidas, últimas palavras. Seja o último beijo, o último abraço, a última conversa, ou até mesmo o último adeus. Naquele momento não havia plaquinhas dizendo “aproveite isso agora pois não irá se repetir”, e mesmo se tivesse, talvez não fosse de tamanha utilidade. Talvez é assim porque simplesmente é melhor assim.
Não sei você, mas eu honestamente não gostaria de saber o dia da minha morte, por exemplo. Cada segundo se tornaria insuportável, e a angústia da espera certamente me mataria antes. Saber que aquele tchau desengonçado e frio foi a última vez que viu alguém também pode não ser uma das melhores coisas...
A verdade é que todo mundo sempre tem aquelas palavras que ficaram presas na garganta, aqueles lindos discursos que gostariam de ter falado, ou até mesmo um simples “eu te amo”. Mas vai por mim, seria muito mais doloroso. Saber que aquele momento é o último, seja do que for, não nos deixaria aproveitá-lo como ele merece. Ele merece ser mais um momento normal, com todas as suas finitudes e infinitudes possíveis, sem lágrimas, sem apertos, sem saudade antecipada.
A vida é assim, uma eterna caminhada no escuro. O que podemos fazer? Aceitar o fato e aproveitar o máximo possível de cada segundo.
Diga tudo o que tem para dizer. Guardar palavras para quê? Palavras esquecidas na garganta só servem para se acumularem e virarem nós.
Então vai em frente, diga ao vizinho que o novo corte de cabelo dele ficou lindo, abrace seu cachorro, diga ao porteiro que ele é muito gentil, diga ao padeiro que o pão dele é o melhor do universo, apareça de surpresa na casa de quem ama, se declare para o mundo... Vai, aproveita, últimas vezes acontecem todo o tempo.  Nunca se sabe o que virá pela frente, ou até mesmo quais serão os últimos passos e as últimas palavras. As minhas podem ser essas. 

domingo, 20 de setembro de 2015

Autorretrato

Aos poucos vou me acertando
De rabisco em rabisco, errando o traço
Entre linhas tortas, me traço
Conheço-me melhor a cada risco
Apago-me, desenho-me, coloro-me
Refaço linhas
Recrio o novo
Me retrato pouco a pouco
No espelho de papel
A caneta percorre minha face
Há risco
Um erro sem volta
Acerto o traço
Aceito minhas linhas
Arrisco


quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Balas e mais balas

Eu confesso, eu confesso, eu mordo a bala antes de chegar ao fim. Eu juro que tento resistir, mas não resisto. Força do hábito.
Uma busca rápida pelo êxtase, um relance de ansiedade ou só falta de paciência para esperar que ela acabe. Independente do motivo, sigo minha vida mordendo balas e mais balas.
Seria eu, antecipando sempre o final de tudo, por puro medo de não ter controle sobre o fim?
E nesse eterno clichê de intensidade vs duração, acabo sempre optando pelo intenso. É rápido, deixa fortes marcas quando acaba, mas pelo menos traz aquela sensação de “valeu a pena”. Um orgasmático fim.
No fundo, somos seres que procuram por orgasmos cotidianos. Não estou apelando pra sexualidade da coisa, refiro-me a efervescência de sentimentos. O ponto máximo de intensidade e excitação de espirito com a felicidade em pequenas coisas.
Então vai, morda as balas, não tenha medo, eu te prometo que valerá a pena.

terça-feira, 18 de agosto de 2015

Metáforas

Antes de levar isso adiante, quero que saiba uma coisa: sou uma garota de metáforas. E não estou me referindo a simples abstrações, refiro-me à minha vida inteira. Sou metáfora por dentro e por fora.
Do lado de dentro, todos os meus enigmas e sentimentos controversos que não fazem o menor sentido para o mundo. Por fora, meu sorriso, meu olhar, pequenos gestos e claro, não poderia deixar de fora as minhas tatuagens. Cada tatuagem minha conta um pouco do que sou.  Frases por todo o canto tornam-me um grande livro a ser lido, e cuidado, os detalhes são essenciais. De Fernando Pessoa a Caio Fernando Abreu, quero saber se está realmente pronto para entrar nesse barco comigo e re-amar quando for preciso. Quer um conselho? Comece pela minha bússola do pulso. Ela não mostra o caminho, mas bem, dá um certa segurança para não se perder por aí. Vai, me dê a mão. Navegue pelo meu corpo e não se espante quando chegar em meus ombros, há um grande símbolo de liberdade por lá. Quando mais nova, fiz para me recordar com carinho de uma importante fase da minha vida, mas acabou tornando-se o meu maior símbolo de amor próprio. Meu pássaros te dirão “ei, ela sabe voar sozinha, e não haverá nada que prenderá os pés dela no chão!”, mas não se assuste. Estarão apenas fazendo a função que os dei, e olha que já espantaram muitos. Não eles em si, mas minha fome pela constante liberdade.
Consciente disso, leia a bula na minha nuca e atente-se aos efeitos colaterais. Se ainda não fugiu, uau, você definitivamente é diferente. Talvez consiga arrancar da minha boca uma frase que não encontrará em parte alguma do meu corpo, algo relacionado com amor. Definitivamente não encontrará essas palavras facilmente por aí, tenho medo de me marcar com coisas que machucam ou que simplesmente podem sumir da noite pro dia.
Em todas as minhas linhas grito que sou uma garota forte e que sempre sabe o que está fazendo, quando no fundo sou apenas um dicionário sem significados: um amontoado de palavras sem sentido algum. Mas se você tiver paciência,  com calma, vem juntando minhas palavras, chegue de mansinho, percorra cada parte do meu corpo até que, por fim, conseguirá me ler por inteira. 

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Na próxima vez, apague as luzes

Você é tão... “sei lá”. Sim, “sei lá” é a definição perfeita. Cheguei a conclusão de que nunca consigo escrever sobre você. Nunca sai meia palavra que faça sentido, assim como tudo isso que sinto.
Você esqueceu a luz acesa quando saiu. Você acendeu-a e simplesmente se foi. Levou consigo a chave e me deixou aqui: trancada eternamente no passado. Malditas luzes que não me deixam dormir, malditas luzes que sempre me dão esperanças de que um dia você virá, nem que seja para apagá-las.
Na próxima vez que sair, faça um escândalo, quebre tudo, faça-me te odiar. Mas por favor, nunca saia dizendo um “a gente se vê” se não  for retornar para pegar as palavras que você deixou cair.  Nunca saia dizendo “se cuida”, sabendo que no fundo preciso de você aqui para não surtar. Nunca saia deixando seu cheiro na casa, se você não faz ideia do quão perturbador é senti-lo todas as noites enquanto imploro aos céus para não sonhar com você novamente.
A última vez que te vi, você estava na contramão. Ou talvez você estivesse no caminho certo e eu fosse a errada da história. Enfim, te vi abraçado com ela. E aquilo doeu de uma forma estranha. Sua felicidade é a minha felicidade da forma mais torturante possível. Sempre torci para você estar com quem quisesse, no entanto implorando que fosse comigo, por mais que eu tivesse certeza do quanto isso é matematicamente impossível.
Meu ônibus seguiu em frente, mas eu não, e o último segundo que te vi foi o segundo mais longo de toda a minha vida. Passou por minha cabeça todas as coisas que eu poderia ter dito, todas as vezes que tive chance de abrir o jogo, de mudar toda a história... E então te perdi de vista. Para sempre.

sábado, 18 de julho de 2015

Tempo é dinheiro

Ô doutor, coloca anúncio no jornal anunciando o melhor trabalho do mundo. Quem não sonha em trabalhar nesse paraíso? Não falei que anunciar daria certo? Olha o tamanho dessa fila, doutor! 
Ta vendo aquela negra ali? Fala que ela leu errado, tem entrevista nenhuma aqui não. Aposto que roubaria ate minha caneta se essa neguinha entrasse no escritório. O loirinho? Pode entrar, claro. É jovem,bonito e forte? Então está contratado! Nunca se sabe quando esses quesitos serão úteis. 
Por que esse jumento não começou a trabalhar ainda? Tá achando muito trabalhar 16 horas por dia acredita? Bota esse vagabundo pra trabalhar em casa, faz nada aqui mesmo! O que ele teria mais importante pra fazer nas 8 horas do dia que ele não esta aqui? Nada é mais importante que a economia. Não trabalham e depois reclamam do preço do tomate. Não trabalham para ganhar seus 10 centavos por hora e ficam aí choramingando com vizinho no supermercado. Tempo é dinheiro, vejam só! Uma balinha por hora não é demais? Bom que com bala na boca não temos que servir almoço. Aquela sopa de água realmente estava nos saindo muito caro. 
Como assim ele só trabalha 16 horas? Já passou da hora de passar isso pra 20! Ih patrão, só restaram 4 horas pro bicho dormir. Coloca ele pra dormir aqui que é melhor pro coitado, vai poder descansar um bocado. Pensando bem, dormir pra que? Já que ele está aqui coloca esse mula pra trabalhar. Esse povo de hoje em dia é tudo folgado, não pode ver tempinho livre que montam na gente. Acham que a gente é burro. Por isso que o país esta desse jeito, povo preguiçoso. Tempo é dinheiro.

quarta-feira, 8 de julho de 2015

Dias cinzas


Por que só está chovendo em mim? Minhas lágrimas perdem-se na tempestade cotidiana. Malditos dias cinzas! Isso deveria doer tanto assim?
Sinto saudades da luz do sol, anda tudo tão frio aqui dentro. Por que todos riem de mim? Minha desgraça é tão desajeitada assim? Quero caminhar junto a eles. Quero enxergar as cores que tanto comentam. Por que não vejo?
Entre uma tempestade e outra, dá para ver um pedaço do céu azul. Ele é tão lindo! Logo o tempo se fecha novamente. É insano.
Tudo está tão bem... Até que troveja. Logo depois vem um raio. Um pingo de chuva, outro, e outro... Até que uma hora, o céu desmorona sobre mim.
Afogo todo santo dia nas mesmas águas. Sou levada por pesadas correntezas para lugares que não quero ver. Não consigo me mover. É como se eu tivesse esquecido como se nada, ou talvez apenas desistido de remar. Tá doendo muito. Está voltando tudo. Estou sangrando sentimentos que não sei descrever. Nem sabia que era capaz de sentir isso.
Não quero sair de debaixo das cobertas, por favor, me deixe aqui. Um dia o despertador tocará e serei obrigada a ir perambulando no modo automático para fazer algo que não estou com a mínima vontade. Enquanto isso, me deixe aqui, por favor.  Um dia tudo isso passará, eu prometo, eu espero, mas enquanto isso me deixe aqui.
É como se eu cultivasse isso aqui dentro. Como se cuidasse desse terrível monstro apenas porque a companhia dele diminui a minha solidão. E vamos confessar que não é a melhor das companhias, mas sei lá, acho que é questão de aceitação. Já o aceitei do meu lado. Às vezes ele me abandona, como qualquer ser normal e em sã consciência que viva do meu lado, mas diferente de todos, ele volta. Volta para preencher a saudade que sinto de quanto as coisas não eram tão vazias aqui dentro. De quando eu ainda via a luz no fim do túnel. Acho que deixei o meu futuro no passado. Simplesmente esqueci-o para trás.
Quando olho para o futuro, vejo meu presente. Minha vida é um eterno replay de clichês e esperanças. Sonhos que não passam de histórias que me conto antes de dormir para não ter pesadelos. Mas o que fazer quando até seus mais coloridos sonhos andam perdendo as cores?
Deixo que a caneta leve minhas mãos, e sai tudo isso: vômitos repletos de restos de palavras que ficam amontoadas no estômago, causando enjoos e reviravoltas mais a cada dia. O próximo estágio dessa doença é o coração. Ouvi dizer que as palavras ditas e não ditas amontoam-se na biblioteca de pretéritos imperfeitos. Lá ficam até serem descobertas ou irem para o lixo. A fase terminal de todo esse mal se encontra no peito. As palavras vão se acumulando pouco a pouco no meu pulmão, dificultando minha respiração mais a cada dia. Já posso senti-las pesar.
Meu remédio? A água salgada que percorre todo meu rosto até me esvaziar por completa. O efeito colateral? A dor. 

sábado, 27 de junho de 2015

O inimigo

Perdi a fé naquele dia cinza em que o primeiro canhão explodiu. Era madrugada, levantei assustada,  e quando olhei para o lado tudo já havia se desmoronado. Tarde demais, sou apenas mais um soldado perdido em campo de batalha, segurando a prova do crime que cometo contra mim mesmo. As frias balas atravessam-me o peito, mas nada acontece. Ainda não fui derrotada. Ainda. 
Temo que esse seja meu último sussurro. Uma dor efêmera que possui o amargo gosto da derrota, com pegajosos sofrimentos que escorrem-me pela boca.
É o fim, agora eu sinto. Mas não me rendo. Queimei minha bandeira branca em tempos difíceis, nos quais precisava das chamas para sobreviver. 
Lutei uma eternidade contra um inimigo que sempre habitou meu espelho. Seus pontos fracos não passam de singelas gotas de papel. Travei uma batalha a punho contra mim mesma. Meu campo de batalha pulsa sangue, minha trincheira não passa de um amontoados de panos largados na cama. Ele está aqui dentro, guerreando entre minhas veias, dores, pulsações. Sou o inimigo.
Guerreando contra meu próprio caos, desfaleço descalça. Quem virá buscar meus sapatos? Minhas gastas solas não servem para meio passo.

terça-feira, 9 de junho de 2015

Metamorfose


Faz muito tempo que não me vejo em meus textos, mas afinal, como me encontrarei neles se nem sei como sou? Chame isso do que quiser, entre elas crise existencial será aceito, mas te digo com toda certeza do mundo que é mais que isso. É sobre eu ser assim. Não é fase, não é questão de tempo, não é angústia. Só sou assim: sem definição. Sou cara e coroa, flor e espinho, sol e lua. Tudo ao mesmo tempo. Sou oposto. Totalmente contrária. Do avesso. Vai ver é só isso.
Feita de metamorfoses, vivo em meu casulo eternamente. Seria eu uma lagarta esperando por asas? Não, é mais que isso. Não sou lagarta nem borboleta, sou a mudança. Sou a metamorfose em si.
Nem sou tão complicada assim vai... Tá, talvez um pouco. Não sei lidar comigo mesma e acredito que esse seja o maior dos meus problemas.
Sinto como se todos os meus textos fossem escritos com as mesmas palavras. E são. Em ordens diferentes, mas são.  Sou frase indefinida. Sempre as mesmas palavras, formando sentenças diferentes, tendo sentidos diferentes, gritando algo diferente para o mundo. Seria isso uma definição? Espero que não. Amanhã tudo isso mudará, seja meu conceito sobre mim ou sobre mundo. Todo esse texto já terá sido realinhado das mais diversas formas. E eu continuarei aqui, entre cada linha, espiando o mundo na esperança de me entender. Me descomplicar é o primeiro, e maior, passo para descomplicar o mundo.

quinta-feira, 28 de maio de 2015

Meus nós


Coração a mil por hora, mas estagnado em uma só batida. Quem sou eu na madrugada dessa noite tão fria? Ventos sopram sentimentos antigos, e sussurram que chegou a hora. Hora de sair da caixa, respirar, finalmente ser eu. A dor misturada com arrependimento amarga a boca, mas me faz ter a certeza de que finalmente o presente chegou. O disfarce aos poucos dissipou-se na neblina, e a lua cheia sugou-me todas as angústias. Despeço dessa minha tão turbulenta metade com o carinho de quem sentirá saudade. Doce criança, obrigado por ter embaralhado tudo aqui dentro. Desembolar meus nós me fez gigante por dentro. Me fez mais eu.

Plante-me, Colha-me, Acolha-me


quarta-feira, 20 de maio de 2015

Pontos

Querida história, desculpa discordar mas o tempo não é um linha. Dias desses, em uma janela de ônibus qualquer, cheguei a conclusão de que não existe continuidade. Em nada.
Minha vida vira e desvira do avesso todo santo dia, mas nunca é a mesma. Todo ontem transforma-se em pó um dia, até para as memórias mais brilhantes. Um dia você irá olhar para trás e sentirá que aquela não era você, que aquela não era sua vida. E realmente não era. A vida é apenas o hoje, esqueça todo o resto. O resto não existe mais.
Se eu pudesse definir o tempo em uma só palavra, não pensaria duas vezes antes de dizer que são como fotografias: Intactas quando tiradas, mas com o tempo se transforam e deformam, amarelam-se... Até que um dia somem no fundo daquela gaveta qualquer, e deixam de existir. Um tempo que nenhum relógio é capaz de mostrar se perde na sua própria abstração.
Não existe relação entre os fatos. Cada momento é um ponto. Esquece toda essa tal de cronologia, não existe linha, não existe passado. Nesse exato momento você apenas está em um universo paralelo flutuando no espaço, daqui alguns segundos será outro. Os universos nunca se repetem. Tempo é ponto. Pontos espalhados entre as estrelas, com enormes buracos negros entre eles. O ontem virou ponto, o hoje é um ponto e o amanhã será outro ponto. Três pontos. Reticências perdidas no ar. 

domingo, 3 de maio de 2015

Instável

Cuspi definições e ainda não me encontrei. Sou pedra, esperando ser moldada. Diamante, esperando ser lapidado. Folha de papel, esperando ser preenchida.
Mergulhei em areia movediça, virei onda do mar. Constantemente, sou inconstante. Equilibradamente, desequilibrada. Feita de instáveis instantes, que se embaralham e desembaralham em uma turbulenta dança de nós. Desata daqui, desata de lá. Embola mais um pouco aqui, desembola lá. Nunca totalmente entendível. Sou mistério que enlouqueceria os mais sábios detetives da literatura. Ziguezagueando em meu mundo labiríntico, vivo enredada no emaranhado de linhas tortas que me envolvem. O meu sentido é não ter sentido. 

sexta-feira, 24 de abril de 2015

A caixa


Não sei ao certo quando vim parar aqui, e agora me parece tarde demais. Estou trancada em uma caixa sem fechaduras. Uma caixa que eu mesma criei e me prendi. Uma forma de me proteger do mundo, ou talvez de mim mesma. Não deu certo. Estou presa justamente com meu maior inimigo: eu mesma. 
E agora estou aqui, morrendo sufocada e implorando por alguma chave qualquer. Só quero sair daqui. Só quero poder ver o mundo novamente. Todas aquelas cores que eu tanto dizia odiar, toda aquela luz que chegava a arder os olhos, todo aquele ar não muito respirável e toda aquela infelicidade que rodava sobre a cidade. Sinto falta do mundo. Do meu mundo já basta, cansei de me afundar nele. Se for pra viver, que ao menos seja no mundo real, fora de toda essa caixa que me circula. Quero ser livre do meu próprio eu. Correr os riscos, ter sentimentos. Sinto saudades de sentir saudades. Faço falta na minha própria vida. Não sou eu.Vivo em uma caixa que não existe. Existo? Essa escuridão está me cegando. 
Alguém aí fora? Qualquer um, alguém, ninguém. Meu eco berra contra o silêncio. Cada segundo a mais aqui dentro me soa como uma contagem regressiva para o fim. No fundo, faz falta sentir falta de alguém.

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Artéria

Artéria: Via de comunicação que leva o sangue desde o coração até às restantes partes do corpo.
Arte: Via de comunicação que leva os mais profundos sentimentos de um ser até o restante do mundo.
Arte em todos os cantos, arte em cada passo, arte no ar que respiro, arte por todo lado.
Vire a esquerda e me  encontrará  nua de corpo em alma, exposta entre linhas. Entrelinhas.
Vira a direita e não em encontrará, estarei escondida, atrás daquela gota de tinta no canto da folha, daquela letra borrada e principalmente, do sorriso estampado.
Sou artéria.  Sangue que pulsa, que move, que circula. Roda o corpo, revira as borboletas do estômago e os poucos neurônios do cérebro.
Um pontinho surge no coração. Se alimentado, vira vírgula. Corre pelo texto feito bicho selvagem. E é justamente isso que ele é: Palavra nascida na selva de sentimentos, difícil de ser domada. Mas a arte fala alto, ela grita, ela berra. Corre ligeira pelas artérias da alma, levando aquela sensação tão pura e singela, para todo o restante do corpo. Sentimento domado, sobre controle da criatividade. Vai seguindo em frente, sem saber ao certo o que esperar. Até que não lhe caiba mais ali, e é aí que ele explode. E sai poesia, sai rabisco, sai arte.

sábado, 21 de março de 2015

Ligação


Lembro de quando eu era criança e o telefone tocava de madrugada. Eu despertava assustada e ficava sem entender os olhares repletos de medo que meus pais trocavam. Mamãe caminhava pé ante pé como quem caminha para a forca, e atendia com uma voz rouca e trêmula que mal se ouvia. Da minha cama, fazia um enorme esforço para calar minha mente e ouvir as vozes lá fora. “Não, não pode ser! Tem certeza?”, foi tudo que ouvi minha mãe dizer antes de devolver o telefone ao gancho e desabar em um choro de criança. Deduzo que a resposta para a pergunta dela foi sim, mas não entendi o motivo daquela resposta doer tanto.
Não dormi mais depois disso. Imaginava mil situações, mas nenhuma parecia fazer sentido tamanha a angústia dos meus pais. Quis abraça-los e chorar junto, não sabia o porquê, mas aquilo também me doía.
A última vez que vi minha avó foi na manhã seguinte. Suas mãos mais pálidas que o habitual seguravam uma linda rosa vermelha que se destacava em seu vestido preto, o seu preferido se não me engano.
Anos se passaram, mas voltei no tempo essa noite. O telefone tocou. Fiquei um tempo deitada, esperando alguém atender, até que lembrei-me que eu era a única daquela casa. Caminhei pé ante pé com uma grande angústia no peito. Atendi. Não sei se deveria tê-lo feito. Agora não havia mais mãe para atender as ligações de madrugada, e pela primeira vez entendi a dor que cada palavra pronunciada pelo outro lado trazia. Desliguei com a certeza de que nunca gostaria de ter atendido.

sábado, 14 de março de 2015

Tag: Minha história em dez músicas

Por mais que todos os meus textos daqui sejam extremamente pessoais, acabo nunca conversando sobre algo abertamente aqui, sem ser em um texto emoldurado entre parágrafos e metáforas. Pois bem, decidi inovar um pouco e responder uma tag que vi no Depois dos quinze, conhecida como "Minha história em dez músicas". Como o próprio nome já diz, devo contar (ou ao menos tentar), um pouquinho sobre mim através do meu gosto musical. Não tenho um gosto muito definido... Apesar que alguns gostam de defini-lo como "estranho". Mas vamos ao que interessa, né?

Uma música que te lembre um momento bom: All Night - Icona pop



domingo, 1 de março de 2015

Alguma relação qualquer entre a vida e jiló

Nunca provei jiló mas odeio. Jeito estranho de começar um texto, mas bem, que usem isso como uma metáfora ao invés de me julgarem como uma gulosa que só pensa com o estômago.
Voltando ao assunto, ou melhor, voltando à primeira frase, como você pode não gostar de algo que nunca experimentou? Ok, não te julgo, aquilo que eu disse é realmente verdade. Mas não me orgulho nem um pouco. Posso estar perdendo a melhor comida da minha vida (tá, pode rir agora), mas enquanto isso, você está aí perdendo a maior chance da sua vida: a de viver. Tente, arrisque, pule de cabeça, e o mais arriscado: ame. Esse último com certeza pode ser bem mais amargo que jiló, mas você precisa dar uma chance. Não pra ele, mas pra você mesma. Uma chance de gostar de alguém, de sentir algo. Não se prive falando que não sabe amar ou que não sente o mesmo, e muito menos não se faça acreditar que vai ser assim pra sempre e que nada pode mudar. 
A vida não é um filme cor de rosa da sessão da tarde com amores a primeira vista. Nem décimas, nem centésimas. Com sorte à milésima vista. E talvez assim seja melhor, ser conquistada pouco a pouco, sem perceber... Até que um dia.. BUM, você se dá conta. 
Vou confessar que já me decepcionei muito com isso. Esperava o The End de todo tamanho na tela seguido de um felizes para sempre. Até que um dia parei e percebi que uma vidinha cheia de imperfeições, reviravoltas e surpresas é melhor que qualquer filme clichê que todos já sabem o final.
Sabe, já tive tantas certezas absolutas que se dissolveram no dia seguinte e tantos "nuncas" que transformaram-se em "sempres" que hoje simplesmente prefiro deixar levar. Pense menos e viva mais. Deixe que as coisas tomem seu rumo.
Já sei, vamos fazer o seguinte: dê uma chance a vida que prometo que darei uma ao jiló, okay?

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Só eu


De repente sou só eu. Só eu naquela noite fria em que amar doeu pela primeira vez. Só eu naquela luta com meu corpo, naquela briga que parecia não ter fim. Só eu rezando a um deus que não sei se acredito, voltando no tempo e vendo que não sobrou ninguém. Só eu deitada no chão do meu quarto ignorando os gritos que vinham lá de fora, me fingindo de cega, fugindo dos problemas. Só eu fingindo estar bem, me fazendo de forte. Só eu desligando o telefone para deixar uma discussão pela metade, me matando pouco a pouco.
Só eu me confessando meus mais terríveis segredos, sentindo medo do futuro, abafando meu choro no travesseiro para não acordar ninguém.  Só eu correndo naquela chuva, ou sentada na esquina esperando o tempo passar. Só eu naquela tarde no parque.  Só eu dormindo na minha cama. Só eu me escondendo dos meus fantasmas debaixo das cobertas. Só eu vendo o pôr do sol na esperança do próximo dia ser melhor, fazendo pedidos a estrelas e bebendo aquela bebida amarga.
Só eu tentando ser boa o suficiente, encarando o teto em todas as minhas noites de insônia, construindo meus castelos de areia. Só eu lutando para sobreviver. Só eu nos meus sonhos futuros. Só eu no meu passado. Só eu e meus vazios e confusões. Só eu naquele beijo,naquele abraço e naquela despedida que não existiu.  Só eu. Só. Sozinha, como sempre foi e sempre vai ser.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

A menina do andar de cima


- Isabela,come esse brócolis.
- Não quero.
- Para de gracinha e come logo.
- Não quero e não vou.
- Tá querendo ficar de castigo menina?
- Se eu ficar de castigo deixo de ir pra escola?
- Não.
- Então não quero.
- Vai comer agora ou vou aí te bater.
- Não. E se me bater, vou chorar bem alto. Até o prédio todo ouvir e chamar a polícia.
- Ta se achando muito espertinha, hein menina? Olha que sem o brócolis não tem sobremesa.
- Não queria mesmo.
- Come logo filhinha, você vai atrasar.
- É ruim, mamãe!
- Se fosse ruim mamãe não comia.
- Mas você nunca come.
- Nunca?
- É, nunca vi no seu prato.
- Er.. Mas a mamãe já ta grande.. quando pequena comi muito pra ficar assim.
- Se eu comer fico igual a senhora?
- Claro!
- Então não quero..

Disse isso e saiu da mesa. Vitória da Isabela.


quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

O hippie e a âncora

- Moço, quanto custa esse colar?
- Hum, a âncora, meu preferido. Tens bom gosto. É muito pé no chão, menina?
-Muito pelo contrário. Asas demais e pés de menos
- Então achou exatamente aquilo que precisava.
-Âncoras que me prendam ao chão?
- Não, âncoras que não te deixem esquecer suas raízes. Você tem uma carinha de confusão. Parece meio perdida aí dentro. E é exatamente nessas horas que você tem que voltar-se para si, por mais que isso seja um tombo para quem esteja nas alturas.
-Sim.. Confusão talvez seja a palavra certa.
- Você me parece daquelas que tentam entender demais o mundo quando nem ao menos se entende, estou certo?
-É, talvez seja isso.
-Pois bem. Quer um conselho?  Você em primeiro, sempre. Pense primeiro em si. Você precisa se entender e estar bem consigo para só então entender o mundo.
-E você entende o mundo?
-Faço meu possível. Tento ir vivendo um dia de cada vez e limpando sempre essa casa que é minha alma para não deixar acumular bagunça. Mas sempre acaba aparecendo uma poeirinha aqui e outra ali, né? Disso não dá pra fugir.
-Minha casa anda tão bagunçada que acho que nem tem espaço para mim lá dentro.
-Ah, tem sim. Sempre tem. Se não conseguir entrar pela porta, pule a janela.
-Difícil moço, difícil..
-Acredita em Deus, menina?
- Olha... É complicado. Não sei bem. Acredito em algo, disso tenho certeza. E é para esse algo que agradeço todos os dias ou que peço ajuda quando tudo parece pesado demais para meus ombros. Mas não acredito nesse Deus de todo mundo, cheio de tantas regras, dogmas, pecados. Nem mesmo acredito em céu ou inferno.
- Quer ouvir um segredo? Deus é individual. Sim, cada um tem o seu. Há até aqueles que não acreditam, e se é assim que pensam, no fundo a inexistência de um Deus torna-se o Deus deles. O importante é acreditar em algo, mesmo que acreditar seja justamente o não acreditar. Me entende? Algo para sentir lá no fundo e prender-se quando nada parecer fazer sentido.
-Sim entendo, acho que você é um dos primeiros que não me julgam pelo meu Deus.
-Ninguém está aqui para julgar ninguém.
-Verdade.. Seria bom se todos pensassem assim. Olha moço, por mim ficaria aqui por horas, mas infelizmente estou atrasada. Quanto é mesmo?
-Todos estão. Olha, vamos fazer assim, fica sendo um presente. Quando sua confusão parecer maior que tudo, feche os olhos, respire fundo e segure bem forte essa âncora por entre os dedos. Pense em si, garota. Você me parece uma pessoa incrível, vê se não se perde por aí.
-Nossa, nem sei como agradecer...
-Já agradeceu com esse lindo sorriso no rosto. Vale mais que qualquer dinheiro.
-Muito obrigada moço, de verdade! Até mais.
-Até, menina. Ah, e só não deixe a âncora te prender também. Siga em frente mas com certo cuidado. A palavra certa talvez seja equilíbrio. Um pé aí dentro e outro pé no mundo.
-Pode deixar!
-Foi um prazer te conhecer!
-O prazer foi todo meu.

E foi assim que conheci Ângelo, o hippie vendedor de colares da esquina do metrô. Um anjo sem asas que trouxe a minha vida um pouquinho da leveza que tanto estava precisando. Já voltei a aquela esquina para vê-lo alguns dias depois, mas nunca mais o encontrei. Deve ter ido para outra rua, entrar por acaso na vida de alguém e ajudá-lo com calma a desembaraçar todos os seus nós internos.

domingo, 18 de janeiro de 2015

Epifania


Em algum momento do meu passado, fiquei para trás. Em uma súbita epifania, descobri que não estou aqui. É, não estou. Não faço a menor ideia  de onde fiquei para trás. Talvez no meu primeiro amor, naquele pôr do sol mágico, naquela viagem, naquela briga, no último gole daquela bebida amarga ou talvez até mesmo naquela madrugada vendo as estrelas.
Um dedo estala em minha mente. Seguido por outro. E outro. Então é isso. Não somos nada, e nesse nada, somos tudo.
Pontinhos perdidos na galáxia. Grãos perdidos na areia. Gotas perdidas no mar. Na nossa insignificância somos algo. 
Ninguém sabe da existência daquele grão de areia na praia, ou daquela gota de água no mar. E ainda assim eles existem. Existem porque existem e só.
Acredito que tudo é mais simples do que parece. Temos essa incrível mania de querer complicar tudo na ilusão de ganhar uma certa magia como recompensa. Não existem respostas para “porquês”  e “o quês”. Criamos perguntas para preencher espaços. É difícil demais aceitar que somos um amontoado de vazios.
Talvez estou ficando louca. Talvez já enlouqueci de vez. Que me internem, me amarrem, me prendam em uma cela qualquer. Mas por favor, com a condição de ser igual a vocês. Ser normal em uma multidão de loucos me faz ser a única louca em um mundo de normais. Cansei de me debater no chuveiro remoendo lembranças de um futuro que nem chegou. Eu me rendo. Que venham com as camisas de força, quero ser como vocês. As coisas devem ser mais fáceis dentro desse hospício chamando realidade na qual todos vivem. Pobres coitados, me vêm aqui fora e sentem pena, não vêem que os presos são eles. Mas é tão solitário ver o mundo por essas lentes pretas e brancas. Abram logo esses portões!
Bandeira branca. Fim da guerra razão x emoção, insanidade x sanidade, realidade x meu mundo. Não houveram ganhadores. Todos perderam nesse jogo que terminou empatado. 
O segredo é não pensar. Não ver. Fingir. Fingir que vive, que ama, que pensa, e o mais importante: fingir que sabe o que está fazendo.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Engole essa solidão

  
Ei menina, engole essa solidão. Vai queimar sua boca, doer-te a garganta e arder seu estômago. Mas engole, vai. 
Era uma vez as borboletas. A escuridão está te dominando. Vê se não enlouquece, é o que costuma acontecer com todos. Você não tem para onde fugir, ou melhor, para quem. Sozinha no mundo, assim como todas as outras bilhões de pessoas. Você é só mais uma solidão ambulante, perambulando pela avenida repleta de máscaras andando apressadas de um lado para o outro. Boatos de que um dia todas caem. E o que resta? Vazios.
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