domingo, 26 de março de 2017

Espetáculo


Cortaram-se as cordas. A marionete despenca no chão oco de madeira causando um tremendo estrondo. Sem reação, a plateia admira o espetáculo sem saber que aquilo não fazia parte do roteiro. Aplaudem a perfeita encenação sem perceber que ela é real. Nada se move. O público aplaude a performance cada vez mais alto e mais forte.
 O tempo passa e o boneco continua sem se movimentar... Entediam-se. Vão embora. As luzes se apagam e a cortina logo se fecha. Fim do espetáculo.


terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

O limite

Sempre demarquei o meu limite com um “preciso escrever sobre isso”. E eis que depois de tempos retornei para as dolorosas folhas de papel. Dolorosas porque falam demais, ou talvez justamente o contrário, por me fazerem falar demais.
Sempre odiei terapia, sabe? Não lido bem com essa coisa de expressar sentimentos, ou transformar em palavras aquilo que quero, ao menos não através do som. Cada pingo de tinta nessa folha é um rendimento, é a salvação de todas essas coisas que ficaram aprisionadas aqui dentro por tanto tempo. Desde pequena, minha mão diz mais que minha boca. Meus velozes dedos se comunicam com o mundo antes mesmo que eu possa processar as informações. Só vou me deixando levar, deixando que as palavras me guiem até onde quero chegar. E onde quero chegar? No alívio. Na explosão dessa bomba relógio que habita dentro de mim. Palavras dizem muito mais do que parece. Uma palavra nunca é apenas uma palavra, uma frase nunca é apenas uma frase.
Uma correnteza invisível, que leva consigo todo esse peso que você andava carregando no braço, sem que ninguém visse. Cada texto que escrevo é um “sobrevivi até aqui, então sou capaz de suportar mais”. Você vê uma coletânea de textos aleatórios e fictícios, eu vejo uma biblioteca de sentimentos e lembranças, que me faz lembrar do quão forte sou por ter sobrevivido a cada história. Sou mera personagem dos meus próprios contos. Enquanto houver história, estarei de pé.


sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Bala perdida


Encontrei a bala perdida
Na boca no inocente
Na cabeça do neguinho
No peito do viado

Encontrei a bala perdida
No beco sem saída
Na esquina da favela
Na casa da dona Maria

Encontrei a bala perdida
Na mão da opressão
Nos braços da mídia
Na cabeça dos ofensivos

Bala perdida ou bala escondida?
Embaixo dos panos
Embaixo do sangue
Embaixo da constituição

Bala que barra a luta
Bala que mata a alma
Bala que aponta os finos dedos e escolhe quem nasceu para morrer

Bala que sai sem querer
Mesmo querendo tanto


segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Inatingível

Desenho por: agnes-cecile

Essa é uma daquelas cartas que nunca chegará nas mãos do destinatário, que escrevo apenas pra tentar acabar com esse sentimento de não ter finalizado uma parte do passado, tentando acabar de vez com essa pendência, esse fio que ainda me remete sempre a você.
Sabe quando você olha para alguém e logo de cara se sente conectada a ela? Foi exatamente o que senti. Seu sorriso me atravessou de um jeito que até hoje lembro daquele momento como se tivesse um holofote sobre você.
Eu nunca te amei, e ainda assim você insiste em aparecer na minha mente vez ou outra e até mesmo nos meus sonhos? Isso não faz o menor sentido. E foi assim que cheguei a conclusão de que o que eu precisava para te deixar para trás de vez era escrever sobre isso.
Pessoas enigmáticas e problemáticas sempre me despertaram uma certa curiosidade. Você era tantos e ao mesmo tempo nenhum. As vezes juro pra mim mesma que você nem existe, não é possível alguém ser tão impenetrável quanto você.
Nunca consegui ver nada além da sua primeira camada, aquela cheia das mentiras que você sempre usou para se cobrir. Eu sempre tentei ver o que tinha atrás dos seus olhos sem vida, e não via nada além de várias personalidades que se revezavam vez ou outra. Eu nunca sabia com qual delas estava lidando, sabe?
Nesse momento estou te abraçando mentalmente, e desejando que você um dia se encontre aí dentro de si. Não deixe essa escuridão interna tomar conta de você... Te garanto que você é muito mais do que isso que tenta mostrar ao mundo.
Faço questão de congelar você em minha mente apenas como aquele cara do sorriso verdadeiro e sincero do primeiro dia que te vi. Se cuida, ta?

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

País das Maravilhas


Alice, acorde, foi apenas um sonho. Não existe coelho, não existe gato, não existe chapeleiro, não existe País das Maravilhas. Você não saiu do lugar um só minuto. Vivendo de mentiras, você mergulhou cada vez mais profundamente em um universo que você criou pra escapar da realidade. Chegou um momento em que esse universo se tornou tão grande que te engoliu.
Algo que era um passatempo tornou-se a mais fiel das mentiras. Você começou criando coisinhas aqui e outras ali, e depois de tanto tempo, começou a acreditar que tudo aquilo era real. Caiu em um buraco tão profundo que não conseguia ver o mundo aqui em cima, e te garanto, ele não tem nada de maravilhas. Bem vinda ao mundo real Alice, onde sonhos são destruídos e coelhos não falam. Um mundo onde você não precisa comer ou tomar nada para se sentir pequena, o próprio mundo já faz isso por você. Você cresceu, e infelizmente o mundo te obriga a largar as fantasias para trás. Sem filtros para esse mundo tão cinza, você precisa aprender a lidar com ele antes que seja tarde. Bem vinda ao país das não maravilhas. 

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Mar de sentimentos

Ilustração: Paula Bonet
A princípio esse texto seria sobre fraqueza, sobre o quão frágil me sinto, sobre meu coração de vidro que vive despedaçando por aí. “Você só sabe chorar” “Garota, você é louca” “Você nem tem motivos para estar assim” “Para de drama" "Como você consegue ser tão burra?". Tantas frases cortantes que apenas engulo a seco. Pedaços e mais pedaços de palavras que não sou capaz de suportar, que meu corpo não é capaz de digerir. E assim viro água corrente, rio que passa sem fim, que leva consigo tudo o que vê pela frente.
Mas quero que saiba que minhas lágrimas não são sinais de fraqueza. Ei, eu te garanto que sou mais forte do que aparento. Ao menos sou forte o bastante pra chorar sem medo, para expulsar de mim tudo aquilo que dói, sem ter que esconder toda essa dor entre quatro paredes. Lágrimas são poesias salgadas, duras palavras que voltam ao mundo em forma de gotas de um imenso mar chamado sentimentos. Eu sinto, eu choro, eu até mesmo enlouqueço as vezes, e sabe? Isso só me torna mais humana. Meus nós na garganta estão aqui pra provar que essa corda é capaz de suportar muito mais do que parece.

domingo, 13 de novembro de 2016

Recuso-me a dizer adeus


Querida, eu gostaria de poder clarear seu mundo agora, mas meus olhos mal se abrem mais. Leve contigo o meu último sorriso, meu último abraço, meu último beijo. Eu odeio despedidas, e é exatamente por isso que te pouparei de ouvir um adeus saindo da minha boca.
Meu tempo está acabando. Vá! Não quero que você esteja aqui no meu último suspiro. Não quero que a última coisa que eu veja é a dor que estou te trazendo. As lágrimas que escorrem do seu rosto agora irão me atormentar pelo resto da eternidade. Estaria eu pagando por todos os meus pecados causando tamanha dor em quem eu tanto amo? Minha garganta se fecha. Tento gritar o quanto eu te amo, mas meus lábios não se movem. Quero te ver pela última vez, mas meus olhos encontram-se embaçados demais para isso. E de repente tudo fica escuro. Ainda posso ouvir sua voz, mas não consigo entender o que você está dizendo entre tantos soluços. E então veio-se um silêncio absoluto. Meu tempo acabou.


quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Cartas a mim mesma: A mensagem na garrafa

Sinto-me colocando uma mensagem em uma garrafa e disparando-a no mar. Essa é minha garrafa. Esse é o meu pedido de socorro. 
Já faz um tempo que crio um monstro de estimação. Ele começou bem pequeninho, entre uma tristeza e outra. Mas ele foi crescendo… E hoje tornou-se maior que eu, e anda ocupando todos os segundos dos meus dias. Ele invadiu cada pedaço do que eu costumava ser, tanto que hoje nem me reconheço no espelho mais. É tão agoniante você olhar para seus próprios olhos implorando para encontrar uma saída de tudo aquilo, ou apenas se lembrar como você era antes de tudo isso. Mas você nunca sai do lugar. É como se tivessem me tomado o passado, presente e futuro. Como se eu estivesse vivendo em um universo paralelo, onde nada possui um sentido. Sinto-me por trás de um espelho, vendo tudo acontecer de forma invertida, sabendo que tudo aquilo está se passando ao meu redor, mas ao esticar os braços pra tentar entrar naquele mundo, dar de cara com uma enorme muralha de vidro. Estou presa nesse maldito espelho. 
E nisso sigo regando minhas dores e cultivando todas essas erva daninhas. Meu jardim, que um dia já foi belo e florido, foi tomado por completo, e hoje não passa de um matagal de problemas. 
Escrever sempre me ajudou, mesmo que pouco, sabe? E eis que agora, aqui estou, escrevendo essas cartas a ninguém, ou talvez apenas a mim mesma, na esperança de aliviar tamanho peso no meu peito.
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